Vai, Brasil!

Vai, Brasil!

Uma série em dez textosPor Gregory DoleOriginalmente publicado em TrueHoopE depois, em 2008, no CortaLuz.Leia a série completa aqui.
O canadense Gregory Dole vive no Brasil e descreve a si mesmo como “escritor freelancer, professor de inglês como segunda língua, técnico de basquete, olheiro e viajante pelo mundo”. Esta é a carreira que não muito tempo atrás, levou-o profundamente de encontro com a vida de um certo “Brazilian Blur”.
Na primavera e verão de 2003, antes e depois do draft da NBA, Dole foi o tradutor de Leandro Barbosa. Ao longo dos próximos dias — francamente, na esperança de conseguir um contrato para escrever um livro (se por acaso houver algum agente ou editor por aí lendo) — Dole estará apresentando histórias de seu período com Barbosa. A primeira história começa quando um jogador brasileiro lhe leva uma fita cassete para a sala de Dole.
***
Acelerando a fita, nós acabamos de pousar no Newark Airport em um voo noturno. Nós dois estamos cansadíssimos. São 7h da manhã ou por aí. Nós estamos exaustos. O branco de nossos olhos está todo vermelho.
Leandrinho tem um treino em duas horas com o New Jersey Nets.
Nós seguimos para o hotel para uma horinha de sono antes de nos encontrarmos com Rod Thorn e cia. Leandrinho não vai treinar hoje. Ele concorda em apresentar-se à equipe dos Nets, na esperança de eles talvez draftarem o brasileiro. Claro, eles querem vê-lo arremassar e correr em quadra. Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, nem Leandrinho irá fazer outro esforço hercúleo de treinar com seu quadril machucado. É isso e ponto.
"Simplesmente diga a eles que não vai acontecer".
"Posso ficar com as bermudas de treino?"
"São todas suas".
Depois de passar um tempo contemplando apaixonadamente a nova bermuda dos Nets que eu usaria em partidas desde a quadra de St. Luke em Ottawa, Canadá até as da Associação dos Trabalhadores de Trânsito de São Carlos, eu vou encarar o humor da equipe do New Jersey Nets.
"Leandrinho não vai treinar hoje. Ele não pode. Ele está machucado e exausto de um voo noturno", digo aos dirigentes ali reunidos. Os Nets não forçam muito a barra. Acho que eles já decidiram quem eles vão draftar [nota do editor, eles escolheram Zoran Planinic] e não valeu muita coisa, o cara que eles escolheram não está mais na NBA.
De qualquer modo, nos pedem que esperemos até que Rod Thorn nos chame para uma entrevista. Mais do mesmo. Nós realmente gostamos do seu jogo e você é um dos jogadores que nós estamos pensando em draftar. Eu me esforcei ao máximo para traduzir, mas Leandrinho não está prestando muita atenção. Eles está flutuando em algum lugar no paraíso de Phoenix que está dentro de sua cabeça, conversando com loiras pernudas e encestando no calor do deserto, cercado de cactus e serpentes.
Fim da entrevista, nós estamos na sala de alongamento. Meu amigo Will veio de Montreal para estar no Draft. Nós vamos para o Spanish Harlem para preparar o cabelo de Leandrinho para o Draft. Cuidado por um barbeiro da República Dominicana, Leandrinho prepara seu estilo.
Então o Seattle Supersonics liga querendo saber se Leandrinho está interessado em ir para a Europa por um ano. Ele não está nem um pouco interessado. Phoenix na cabeça.
Eu então fico sabendo que Danny Ainge ligou. Suas “fontes” em Phoenix dizem que Leandrinho deu um show em um treino secreto. Pelo que eu pude saber, Ainge ficou muito desapontado. Ele queria que Leandrinho desse esse show em Boston. Saber que o garoto foi ver seus ex-funcionários em Phoenix deve ter incomodado um pouco Ainge. (Claro, ele não soube do quase-milagre que eu tive que fazer para que o garoto treinasse).
A noite do Draft finalmente chega, e Leandrinho e eu estamos exaustos.
À medida que o Draft se desenrola, eu recebo a notícia que os Suns e, inesperadamente, o Toronto Raptors estão ligando desesperadamente tentando conseguir uma escolha extra para selecionar Leandrinho. Estamos chocados em ver tanto Suns quanto os Celtics passarem Leandrinho em suas escolhas, dado o nível de interesse que eles mostraram no brasileiro. O primeiro round está quase no fim.
Outro empresário sentado próximo, que representa o argentino Carlos Delfino, chama a atenção para o lado bom de Leandrinho ser escolhido no segundo round. Ser escolhido no primeiro round é uma verdadeira decepção se você é um jogador talentoso. Basicamente, os jogadores escolhidos no primeiro round não podem ser “free agents” nos cinco anos seguintes, o que para muitos jogadores representa boa parte de suas carreiras. Além disso, os empresários não podem alterar muito os contratos daqueles escolhidos no primeiro round porque os salários são mais ou menos pré-estabelecidos pela NBA.
O empresário de Delfino estava dizendo que Leandrinho poderia detonar por dois anos e então conseguir entrar no mercado de “free agent”, como Gilbert Arenas e Carlos Boozer. (Este argumento anti-primeiro round veio na minha cabeça mais tarde quando eu li sobre o primeiro adversário de Leandrinho nos treinos, Marquis Daniels. Ele foi para a NBA sem passar pelo draft, mas jogou bem pelos Mavericks e então embolsou um contrato de seis anos e US$ 38 milhões, algo similar ao contrato que Leandrinho conseguiu depois de jogar na Liga por quatro anos.
Mas este não seria o destino de Leandrinho. Depois de esperar quase todo o primeiro round, o San Antonio Spurs escolheu-o na vigésima oitava escolha. David Stern lhe dá um boné dos Spurs que eu ainda tenho em uma caixa em algum lugar do Canadá.
Eu não vejo Leandrinho ser escolhido ou subir no palco para encontrar Stern. Arturo e eu estamos muito ocupados comemorando. Eu praticamente o sufoquei, apertando seu pescoço com as duas mãos enquanto pulávamos pra cima e para baixo. Foi um momento fantástico que eu nunca mais vou esquecer.
Minutos depois estamos em uma suíte fora do auditório do Madison Square Garden, telefonando para a família no Brasil. Ele acaba, na verdade, escolhido pelos Suns usando uma escolha dos Spurs. Os Spurs não tinham interesse no brasileiro. Já feliz em ser draftado, descobrindo que ele era de fato um Phoenix Suns, transforma o momento em algo ainda mais inacreditável para Leandrinho.
Seguindo a loucura do Draft, ele deveria ter saído e pintado toda a cidade de vermelho. Nós não. Nós fomos para um belo restaurante brasileiro chamado Plataforma, em Manhattan. Para nossa surpresa, o lugar estava vazio exceto por uma festa já no final. Derek Jeter e um pequeno grupo de amigos estavam celebrando seu aniversário.
Derek Jeter, o melhor jogador de beisebol dos New York Yankees. “Ele é o rei da cidade”, digo a Leandrinho. Claro, o brasileiro não tem idéia de quem ele é e não tem o menor interesse em conhecer o Rei Derek. Ele está mais interessado em servir-se do churrasco, carne, porco, carneiro, coraçãozinho de frango, medalhões de frango envoltos em bacon, queijo, e claro, os tradicionais arroz com feijão brasileiros. O clássico rango do Brasil.
Quando nós terminamos de comer, Leandrinho e eu estamos exaustos e prontos para dormir, Amanhã de manhã estaremos indo para Phoenix. Entretanto, nós prometemos aos caras de William Wesley e LeBron James que iríamos passar no clube 40/40, de Jay-Z, em Manhattan, para uma festa de LeBron.
No clube, Wes é sempre o anfitrião mais agradável. Wes nos leva para dar um oi para Jay-Z.
Neste momento, eu preciso dizer que eu continuo um grande fã do trabalho antigo de Jay-Z, especialmente seu álbum seminal Reasonable Doubt. The Evil é uma das minhas músicas prediletas. Eu ainda posso recitá-la palavra por palavra. O álbum é “off the chain”, para emprestar algumas gírias que eu aprendi no centro comunitário de Fairfax, em Cleveland.
Eu estou coçando para gritar e parabenizar Jay pelo seu fantástico trabalho, mas por alguma razão, eu não sou apresentado. Meu amigo Will sim, entretanto. Jay lhe pergunta o que ele fez, e ele responde, honestamente preciso dizer, que ele fabrica equipamentos militares. Jay não sabe como responder. Mas quem sabe? Com isso, eu perco minha oportunidade de dizer “e aí, Jay” e “Reasonable Doubt. Uau! Mudou minha vida”. E por aí vai.
Nós então voltamos para o hotel. Minha mente passa pelos acontecimentos que parecem ter sido apenas dias atrás. É claro, este é um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Altos e baixos, sem nunca saber bem onde esta montanha russa brasileira iria terminar.
Tendo finalmente concluído nossa jornada, nós podemos relaxar e refletir. Eu me lembro de um momento em Cleveland.
Um dos meus momentos mais marcantes com Leandrinho foi quando ele recebeu seu primeiro par de tênis de basquete logo que ele chegou. A And1 tinha visto o famoso vídeo e estava convencido de que o brasileiro era “o cara”. Eles mandaram caixas e caixas de tênis e roupas da And 1. Era ridículo. Leandrinho estava no mundo da lua.
Foi no momento que ele abriu seu primeiro pacote da And1 que eu notei Leandrinho e seu irmão quase chorando. Arturo percebeu que eu tinha notado a lágrima quase escorrendo dos seus olhos e tratou de me explicar porque um simples par de tênis quase levou um militar durão aos prantos. “Nós nunca tivemos muitos tênis em nossa vida”, disse Arturo. Devia haver uns dez pares de tênis lá. 
"Quando Leandrinho era garoto eu sempre quis que ele tivesse bons tênis de basquete, não aquelas marcas de merda que fabricavam no Brasil. Claro, um bom par de tênis Nike ou Adidas custava um salário inteiro, e nós não estávamos em condições de gastar um mês de trabalho nisso. Então eu passava meus dias de folga buscando latinhas de cerveja e refrigerante nas ruas de São Paulo. Não importava se fazia frio ou calor, eu andaria o dia todo, carregando um saco de plástico grande e marrom e enchendo ele à medida que caminhava. Levava vários meses de fins de semana para juntar dinheiro suficiente para comprar um par de tênis, mas eu fazia isso porque queria que meu irmão tivesse bons tênis”.
Ao contar essa história, ele estava meio que sorrindo. Não que a história fosse tão engraçada, eu acho que Arturo estava em estado de choque ao olhar para os lados e ver pilhas de produtos And1 grátis. Ele devia estar pensando, eu passei todos os meus fins de semana por meses e meses recolhendo latinhas para comprar um par de tênis, quando aqui esses gringos dão essas coisas de graça!
Eu poderia continuar falando de como a história dos tênis And1 são um grande exemplo da pobreza que Leandrinho confrontou na sua vida, mas eu acho que eu não estaria fazendo jus à montanha que ele subiu para chegar onde ele está agora, na noite posterior ao Draft em Nova York.
O que eu posso dizer é isso: Leandrinho, neste momento, independente do que vá acontecer com ele na NBA, é um sucesso. Pelo fato de ter garantido um contrato de rookie, ele tirou sua família da batalha diária que é a vida de um assalariado médio nos chamados países em desenvolvimento. Na minha maneira de ver a coisa, os pobres urbanos de São Paulo vivem uma existência sofrida. Há pouco descanso, quando muito paz. É um círculo vicioso. Você precisa trabalhar até a exaustão só para pagar as necessidades básicas, e você não pode nem pensar em economizar para conseguir uma melhor educação para sua qualificação profissional. Não há luz no fim do túnel, não nessa vida, pelo menos. Leandrinho escalou uma montanha difícil, e ele mudou todas as possibilidades para o futuro de sua família. Eles agora têm o seu pedaço do sonho. E é um sonho americano, que calculado de acordo com o valor do câmbio das moedas, vale três vezes o sonho brasileiro.
Um vez mais dividindo o quarto duplo de um hotel em Nova York, nós ficamos acordados conversando sobre todos os fatos das últimas semanas. O pobre brasileiro é agora um milionário, mas a ficha ainda não caiu de verdade. Ele está em estado de deslumbramento.
Tudo que eu posso pensar realmente é dar os meus parabéns. “Obrigado, cara. Obrigado mesmo. E eu realmente agradeço sua ajuda. Eu nunca poderia ter feito isso sem você”, o brasileiro agradece de volta. É algo legal da parte dele. Eu também estou curtindo o final bem sucedido para uma iniciativa improvável.
O primeiro armador draftado do Brasil. Nós fizemos história. Na verdade, Leandrinho fez história, e eu sou mais como uma obscura nota de rodapé.
Quando estava tudo dito e feito, Leandrinho e eu fomos ambos para nossas respectivas casas. Alguns meses mais tarde, nos encontramos de novo em Phoenix e refletimos sobre a longa, estranha e entusiasmante viagem que nós fizemos na caminhada para o Draft.
Um momento que ficou na na cabeça de nós dois foi a chance de encontrar a lenda do basquete brasileiro e então estrela o Vasco da Gama, Josuel, no aeroporto de São Paulo, um pouco antes de voarmos para os Estados Unidos. Nos seu auge, Josuel era uma certeza como jogador da NBA. Ele tinha 2m02, podia pular bastante e tinha bom arremesso de qualquer distância. Pense em Amare Stoudemire.
Josuel foi abençoado com uma extravagância atlética que a NBA procura. Eu sei disso porque um executivo do Toronto Raptors me falou que sua equipe, assim como outras da liga, haviam lhe oferecido um contrato em muitas oportunidades.
Eles nunca entenderam porque Josuel rejeitava suas ofertas sucessivamente.
Um ex-companheiro de confiança de Josuel me contou a verdadeira história. Josuel não tinha a menor idéia do que fazer com a oferta de jogar na NBA. A oportunidade o apavorava, até de falar no assunto. Ele mesmo não acreditava que podia jogar na NBA. Ele pensava que todo mundo na NBA era tão bom quanto o Dream Team de 1992, que ele jogou contra em Barcelona. Um certo dia, Josuel machucou seu joelho e perdeu aquele atleticismo que a NBA exigia. Ele nunca mais foi o mesmo jogador.
Quando o encontramos naquele dia, Josuel estava em decadência na carreira. Conversando conosco no aeroporto, Josuel estava surpreso de saber que Leandrinho estava a ponto de tentar a sorte na NBA. Ainda que de uma outra geração de jogadores brasileiros, de uma maneira indireta, esta era também a tentativa de redenção do próprio Josuel.
Em Phoenix, depois do Draft, Leandrinho disse: “Eu honestamente sinto como se eu pudesse dividir meu sucesso com caras como Josuel. Todos os caras do Brasil que tinham o talento mas nunca tiveram a chance”.
Encontrar Josuel no aeroporto me trouxe de volta aos tempos na Africa, onde eu também tinha visto muito talento desperdiçado. Eu me lembro de um garoto congolês de 2m02 chamado Jean que apareceu na quadra do Tanesco Electricity. Esta espécie fisicamente fantástica era da tribo Tutsi, um pequeno vilarejo no remoto coração da Africa. Ele veio viver na Tanzânia depois de ter sido perseguido em seu antigo Zaire, Rwanda, e então no Burundi por causa do genocídio que estava acontecendo na região.
Jean era um jogador fantástico, nascido para jogar o jogo. Ele era tão atlético que podia fazer o pivô antes do lance-livre, saltar estancado e enterra a bola. O cara dormia em um chão de terra e nunca teve mais de uma refeição por dia e ainda assim parecia um fisiculturista. Até hoje, eu vi poucos atletas como ele. Aos meus olhos, pelo menos, Jean era como uma versão maior de Jason Richardson.
Eu o ajudei a conseguir uma bolsa de basquete nos Estados Unidos, mas a imigração dos EUA em Dar não lhe concedeu o visto de estudante.
Ele era bem conhecido pelos norte-americanos em Dar porque eu o levava sempre comigo para os rachas semanais contra os Mariners dos EUA, no ginásio da embaixada dos Estados Unidos. Os Mariners sabiam que Jean era um jogador inacreditável, mas o setor de vistos da embaixada dos EUA não estava nem aí.
Na verdade, a equipe de imigração disse àquela vez que Jean nunca entraria nos EUA. Era tanta má-fé que eu podia me lembrar literalmente da lembrança que Jean tinha daquela conversa. Jean continuou jogando basquetebol, tocando a vida de Dar a Cape Town, África do Sul (mais ou menos a distância entre Boston e Los Angeles), levando um pouco de qualidade à liga profissional de lá.
Morando em um vilarejo, Jean pegou meningite e morreu em três dias.
Coincidentemente, poucas semanas após sua morte, terroristas da Al-Qaeda explodiram uma bomba na embaixada norte-americana na Tanzânia. Eu suponho que a quadra de basquete dos Mariners que nós jogávamos virou fumaça também.
Para tantos da parte miserável do mundo, a vida é muito injusta e repleta de sonhos não realizados. Ao ver a gravação do vídeo de Leandrinho subindo ao palco e apertando as mãos de David Stern, eu me recordo daqueles dias emocionantes na Tanzânia onde as coisas pareciam possíveis para meus amigos. Para mim, portanto, Leandrinho, tenha ele consciência disso ou não, representa um tipo de superstar do mundo pobre.
Ele chegou lá, desde um lugar onde tantas outras pessoas talentosas que nasceram em circunstâncias difíceis não chegaram. É uma coisa tornar-se um ídolo na América do Norte ou Europa, onde um sistema existe para estimular o talento a partir do minuto que ele é identificado. Essas histórias de sucesso são interessantes, mas elas são todas parecidas. Quantos jogadores seguiram a rota para a NBA e Europa por meio de fábricas de basquete como Kentucky ou UNC?
No outro lado da equação estão países como o Brasil, onde a infra-estrutura do basquetebol quase não existe. Enquanto o país produz alguns talentos da NBA ao longo dos últimos anos, o número de clubes no país continua a diminuir. O Continental, onde Leandrinho recebeu suas aulas de basquete, não tem mais um time. Muito talento é perdido no Brasil porque os garotos não têm onde jogar. Em São Paulo, uma cidade de quase 20 milhões de pessoas, existem umas 40 equipes de base. Em comparação, a cidade de Buenos Aires, com umas 10 milhões de pessoas, tem mais de 120 clubes.
A FIBA, em sua infinita sabedoria, tem tornado as coisas mais difíceis nos últimos anos, criando regras que tornam quase impossível que brasileiros vão jogar na Europa antes dos 18 anos. Vai contra lógica que um jogador de basquete possa aprender e desenvolver seu talento para chegar à NBA. Leandrinho é como um milagre do basquetebol. Ele teve a seu favor praticamente nada, além da ajuda de seu professor maluco de basquete, o irmão Arturo.
No dia depois do Draft, Leandrinho e eu nos encontramos com seu irmão Arturo e sua mãe Ivete. Na maioria dos dias, Arturo é um moinho constante de energia e ansiedade. Neste dia, ele estava tomado de paz. Na minha maneira de ver as coisas, seu trabalho estava feito. Ele pode seguir tranquilo o resto da sua vida. O que começou no clube Continental nos subúrbios de Osasco, São Paulo, quando o jovem Arturo decidiu levar seu irmão mais novo com ele para os treinos, terminou sob as luzes ofuscantes do Madison Square Garden, em Manhattan.
Escrevendo essas memórias, eu agora percebo que meu período ao lado de Leandrinho enquanto batalhávamos em sua busca para entrar na NBA foi uma jornada tão intensa quanto eu esperava ser. Ele foi um sofredor que veio, viu e venceu. O conquistador. Chegar lá não foi nenhum conto de fadas, mas nem mesmo Walt Disney poderia escrever um final melhor para a história.
Depois que ele venceu o prêmio de Melhor Sexto Homem, Leandrinho deu uma entrevista a um jornalista brasileiro e me disseram que ele me agradeceu pelo que eu fiz. Todo cão merece seu dia. Eu sabia disso assim como sabia que eu era parte de algo extraordinário. Eu fico extremamente satisfeito de saber que eu pude fazer parte de uma incrível história do esporte.
Quando eu era um jornalista freelancer na Montreal Gazette, meu editor me deu uma grande ajuda me deixando apurar qualquer história excêntrica. Depois que eu entrevistei Chuck Daly no All-Star Game de 2002, na Filadélfia, eu sabia que eu tinha achado algo que algum dia eu escreveria a respeito: Daly comentou que ainda não tinha achado um jogador internacional que fosse tão atlético quanto os tops norte-americanos. De meus tempos de colégio na Tanzânia, eu sabia que haviam atletas incríveis ao redor do mundo. Seis meses depois, eu encontro o famoso vídeo de Leandrinho. Eu me pergunto se Chuck Daly ainda diria isso hoje.
Leandrinho e eu mantivemos contato ao longo das primeiras temporadas. A vida segue adiante e nós também, mas eu tenho certeza que nós iremos nos reconectar algum dia por aí e lembraremos daqueles dias em que o destino sabia o que havia reservado para o brasileiro de mão esquerda grande.

Uma série em dez textos
Por Gregory Dole
Originalmente publicado em TrueHoop
E depois, em 2008, no CortaLuz.
Leia a série completa aqui.

O canadense Gregory Dole vive no Brasil e descreve a si mesmo como “escritor freelancer, professor de inglês como segunda língua, técnico de basquete, olheiro e viajante pelo mundo”. Esta é a carreira que não muito tempo atrás, levou-o profundamente de encontro com a vida de um certo “Brazilian Blur”.

Na primavera e verão de 2003, antes e depois do draft da NBA, Dole foi o tradutor de Leandro Barbosa. Ao longo dos próximos dias — francamente, na esperança de conseguir um contrato para escrever um livro (se por acaso houver algum agente ou editor por aí lendo) — Dole estará apresentando histórias de seu período com Barbosa. A primeira história começa quando um jogador brasileiro lhe leva uma fita cassete para a sala de Dole.

***

Acelerando a fita, nós acabamos de pousar no Newark Airport em um voo noturno. Nós dois estamos cansadíssimos. São 7h da manhã ou por aí. Nós estamos exaustos. O branco de nossos olhos está todo vermelho.

Leandrinho tem um treino em duas horas com o New Jersey Nets.

Nós seguimos para o hotel para uma horinha de sono antes de nos encontrarmos com Rod Thorn e cia. Leandrinho não vai treinar hoje. Ele concorda em apresentar-se à equipe dos Nets, na esperança de eles talvez draftarem o brasileiro. Claro, eles querem vê-lo arremassar e correr em quadra. Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, nem Leandrinho irá fazer outro esforço hercúleo de treinar com seu quadril machucado. É isso e ponto.

"Simplesmente diga a eles que não vai acontecer".

"Posso ficar com as bermudas de treino?"

"São todas suas".

Depois de passar um tempo contemplando apaixonadamente a nova bermuda dos Nets que eu usaria em partidas desde a quadra de St. Luke em Ottawa, Canadá até as da Associação dos Trabalhadores de Trânsito de São Carlos, eu vou encarar o humor da equipe do New Jersey Nets.

"Leandrinho não vai treinar hoje. Ele não pode. Ele está machucado e exausto de um voo noturno", digo aos dirigentes ali reunidos. Os Nets não forçam muito a barra. Acho que eles já decidiram quem eles vão draftar [nota do editor, eles escolheram Zoran Planinic] e não valeu muita coisa, o cara que eles escolheram não está mais na NBA.

De qualquer modo, nos pedem que esperemos até que Rod Thorn nos chame para uma entrevista. Mais do mesmo. Nós realmente gostamos do seu jogo e você é um dos jogadores que nós estamos pensando em draftar. Eu me esforcei ao máximo para traduzir, mas Leandrinho não está prestando muita atenção. Eles está flutuando em algum lugar no paraíso de Phoenix que está dentro de sua cabeça, conversando com loiras pernudas e encestando no calor do deserto, cercado de cactus e serpentes.

Fim da entrevista, nós estamos na sala de alongamento. Meu amigo Will veio de Montreal para estar no Draft. Nós vamos para o Spanish Harlem para preparar o cabelo de Leandrinho para o Draft. Cuidado por um barbeiro da República Dominicana, Leandrinho prepara seu estilo.

Então o Seattle Supersonics liga querendo saber se Leandrinho está interessado em ir para a Europa por um ano. Ele não está nem um pouco interessado. Phoenix na cabeça.

Eu então fico sabendo que Danny Ainge ligou. Suas “fontes” em Phoenix dizem que Leandrinho deu um show em um treino secreto. Pelo que eu pude saber, Ainge ficou muito desapontado. Ele queria que Leandrinho desse esse show em Boston. Saber que o garoto foi ver seus ex-funcionários em Phoenix deve ter incomodado um pouco Ainge. (Claro, ele não soube do quase-milagre que eu tive que fazer para que o garoto treinasse).

A noite do Draft finalmente chega, e Leandrinho e eu estamos exaustos.

À medida que o Draft se desenrola, eu recebo a notícia que os Suns e, inesperadamente, o Toronto Raptors estão ligando desesperadamente tentando conseguir uma escolha extra para selecionar Leandrinho. Estamos chocados em ver tanto Suns quanto os Celtics passarem Leandrinho em suas escolhas, dado o nível de interesse que eles mostraram no brasileiro. O primeiro round está quase no fim.

Outro empresário sentado próximo, que representa o argentino Carlos Delfino, chama a atenção para o lado bom de Leandrinho ser escolhido no segundo round. Ser escolhido no primeiro round é uma verdadeira decepção se você é um jogador talentoso. Basicamente, os jogadores escolhidos no primeiro round não podem ser “free agents” nos cinco anos seguintes, o que para muitos jogadores representa boa parte de suas carreiras. Além disso, os empresários não podem alterar muito os contratos daqueles escolhidos no primeiro round porque os salários são mais ou menos pré-estabelecidos pela NBA.

O empresário de Delfino estava dizendo que Leandrinho poderia detonar por dois anos e então conseguir entrar no mercado de “free agent”, como Gilbert Arenas e Carlos Boozer. (Este argumento anti-primeiro round veio na minha cabeça mais tarde quando eu li sobre o primeiro adversário de Leandrinho nos treinos, Marquis Daniels. Ele foi para a NBA sem passar pelo draft, mas jogou bem pelos Mavericks e então embolsou um contrato de seis anos e US$ 38 milhões, algo similar ao contrato que Leandrinho conseguiu depois de jogar na Liga por quatro anos.

Mas este não seria o destino de Leandrinho. Depois de esperar quase todo o primeiro round, o San Antonio Spurs escolheu-o na vigésima oitava escolha. David Stern lhe dá um boné dos Spurs que eu ainda tenho em uma caixa em algum lugar do Canadá.

Eu não vejo Leandrinho ser escolhido ou subir no palco para encontrar Stern. Arturo e eu estamos muito ocupados comemorando. Eu praticamente o sufoquei, apertando seu pescoço com as duas mãos enquanto pulávamos pra cima e para baixo. Foi um momento fantástico que eu nunca mais vou esquecer.

Minutos depois estamos em uma suíte fora do auditório do Madison Square Garden, telefonando para a família no Brasil. Ele acaba, na verdade, escolhido pelos Suns usando uma escolha dos Spurs. Os Spurs não tinham interesse no brasileiro. Já feliz em ser draftado, descobrindo que ele era de fato um Phoenix Suns, transforma o momento em algo ainda mais inacreditável para Leandrinho.

Seguindo a loucura do Draft, ele deveria ter saído e pintado toda a cidade de vermelho. Nós não. Nós fomos para um belo restaurante brasileiro chamado Plataforma, em Manhattan. Para nossa surpresa, o lugar estava vazio exceto por uma festa já no final. Derek Jeter e um pequeno grupo de amigos estavam celebrando seu aniversário.

Derek Jeter, o melhor jogador de beisebol dos New York Yankees. “Ele é o rei da cidade”, digo a Leandrinho. Claro, o brasileiro não tem idéia de quem ele é e não tem o menor interesse em conhecer o Rei Derek. Ele está mais interessado em servir-se do churrasco, carne, porco, carneiro, coraçãozinho de frango, medalhões de frango envoltos em bacon, queijo, e claro, os tradicionais arroz com feijão brasileiros. O clássico rango do Brasil.

Quando nós terminamos de comer, Leandrinho e eu estamos exaustos e prontos para dormir, Amanhã de manhã estaremos indo para Phoenix. Entretanto, nós prometemos aos caras de William Wesley e LeBron James que iríamos passar no clube 40/40, de Jay-Z, em Manhattan, para uma festa de LeBron.

No clube, Wes é sempre o anfitrião mais agradável. Wes nos leva para dar um oi para Jay-Z.

Neste momento, eu preciso dizer que eu continuo um grande fã do trabalho antigo de Jay-Z, especialmente seu álbum seminal Reasonable Doubt. The Evil é uma das minhas músicas prediletas. Eu ainda posso recitá-la palavra por palavra. O álbum é “off the chain”, para emprestar algumas gírias que eu aprendi no centro comunitário de Fairfax, em Cleveland.

Eu estou coçando para gritar e parabenizar Jay pelo seu fantástico trabalho, mas por alguma razão, eu não sou apresentado. Meu amigo Will sim, entretanto. Jay lhe pergunta o que ele fez, e ele responde, honestamente preciso dizer, que ele fabrica equipamentos militares. Jay não sabe como responder. Mas quem sabe? Com isso, eu perco minha oportunidade de dizer “e aí, Jay” e “Reasonable Doubt. Uau! Mudou minha vida”. E por aí vai.

Nós então voltamos para o hotel. Minha mente passa pelos acontecimentos que parecem ter sido apenas dias atrás. É claro, este é um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Altos e baixos, sem nunca saber bem onde esta montanha russa brasileira iria terminar.

Tendo finalmente concluído nossa jornada, nós podemos relaxar e refletir. Eu me lembro de um momento em Cleveland.

Um dos meus momentos mais marcantes com Leandrinho foi quando ele recebeu seu primeiro par de tênis de basquete logo que ele chegou. A And1 tinha visto o famoso vídeo e estava convencido de que o brasileiro era “o cara”. Eles mandaram caixas e caixas de tênis e roupas da And 1. Era ridículo. Leandrinho estava no mundo da lua.

Foi no momento que ele abriu seu primeiro pacote da And1 que eu notei Leandrinho e seu irmão quase chorando. Arturo percebeu que eu tinha notado a lágrima quase escorrendo dos seus olhos e tratou de me explicar porque um simples par de tênis quase levou um militar durão aos prantos. “Nós nunca tivemos muitos tênis em nossa vida”, disse Arturo. Devia haver uns dez pares de tênis lá.

"Quando Leandrinho era garoto eu sempre quis que ele tivesse bons tênis de basquete, não aquelas marcas de merda que fabricavam no Brasil. Claro, um bom par de tênis Nike ou Adidas custava um salário inteiro, e nós não estávamos em condições de gastar um mês de trabalho nisso. Então eu passava meus dias de folga buscando latinhas de cerveja e refrigerante nas ruas de São Paulo. Não importava se fazia frio ou calor, eu andaria o dia todo, carregando um saco de plástico grande e marrom e enchendo ele à medida que caminhava. Levava vários meses de fins de semana para juntar dinheiro suficiente para comprar um par de tênis, mas eu fazia isso porque queria que meu irmão tivesse bons tênis”.

Ao contar essa história, ele estava meio que sorrindo. Não que a história fosse tão engraçada, eu acho que Arturo estava em estado de choque ao olhar para os lados e ver pilhas de produtos And1 grátis. Ele devia estar pensando, eu passei todos os meus fins de semana por meses e meses recolhendo latinhas para comprar um par de tênis, quando aqui esses gringos dão essas coisas de graça!

Eu poderia continuar falando de como a história dos tênis And1 são um grande exemplo da pobreza que Leandrinho confrontou na sua vida, mas eu acho que eu não estaria fazendo jus à montanha que ele subiu para chegar onde ele está agora, na noite posterior ao Draft em Nova York.

O que eu posso dizer é isso: Leandrinho, neste momento, independente do que vá acontecer com ele na NBA, é um sucesso. Pelo fato de ter garantido um contrato de rookie, ele tirou sua família da batalha diária que é a vida de um assalariado médio nos chamados países em desenvolvimento. Na minha maneira de ver a coisa, os pobres urbanos de São Paulo vivem uma existência sofrida. Há pouco descanso, quando muito paz. É um círculo vicioso. Você precisa trabalhar até a exaustão só para pagar as necessidades básicas, e você não pode nem pensar em economizar para conseguir uma melhor educação para sua qualificação profissional. Não há luz no fim do túnel, não nessa vida, pelo menos. Leandrinho escalou uma montanha difícil, e ele mudou todas as possibilidades para o futuro de sua família. Eles agora têm o seu pedaço do sonho. E é um sonho americano, que calculado de acordo com o valor do câmbio das moedas, vale três vezes o sonho brasileiro.

Um vez mais dividindo o quarto duplo de um hotel em Nova York, nós ficamos acordados conversando sobre todos os fatos das últimas semanas. O pobre brasileiro é agora um milionário, mas a ficha ainda não caiu de verdade. Ele está em estado de deslumbramento.

Tudo que eu posso pensar realmente é dar os meus parabéns. “Obrigado, cara. Obrigado mesmo. E eu realmente agradeço sua ajuda. Eu nunca poderia ter feito isso sem você”, o brasileiro agradece de volta. É algo legal da parte dele. Eu também estou curtindo o final bem sucedido para uma iniciativa improvável.

O primeiro armador draftado do Brasil. Nós fizemos história. Na verdade, Leandrinho fez história, e eu sou mais como uma obscura nota de rodapé.

Quando estava tudo dito e feito, Leandrinho e eu fomos ambos para nossas respectivas casas. Alguns meses mais tarde, nos encontramos de novo em Phoenix e refletimos sobre a longa, estranha e entusiasmante viagem que nós fizemos na caminhada para o Draft.

Um momento que ficou na na cabeça de nós dois foi a chance de encontrar a lenda do basquete brasileiro e então estrela o Vasco da Gama, Josuel, no aeroporto de São Paulo, um pouco antes de voarmos para os Estados Unidos. Nos seu auge, Josuel era uma certeza como jogador da NBA. Ele tinha 2m02, podia pular bastante e tinha bom arremesso de qualquer distância. Pense em Amare Stoudemire.

Josuel foi abençoado com uma extravagância atlética que a NBA procura. Eu sei disso porque um executivo do Toronto Raptors me falou que sua equipe, assim como outras da liga, haviam lhe oferecido um contrato em muitas oportunidades.

Eles nunca entenderam porque Josuel rejeitava suas ofertas sucessivamente.

Um ex-companheiro de confiança de Josuel me contou a verdadeira história. Josuel não tinha a menor idéia do que fazer com a oferta de jogar na NBA. A oportunidade o apavorava, até de falar no assunto. Ele mesmo não acreditava que podia jogar na NBA. Ele pensava que todo mundo na NBA era tão bom quanto o Dream Team de 1992, que ele jogou contra em Barcelona. Um certo dia, Josuel machucou seu joelho e perdeu aquele atleticismo que a NBA exigia. Ele nunca mais foi o mesmo jogador.

Quando o encontramos naquele dia, Josuel estava em decadência na carreira. Conversando conosco no aeroporto, Josuel estava surpreso de saber que Leandrinho estava a ponto de tentar a sorte na NBA. Ainda que de uma outra geração de jogadores brasileiros, de uma maneira indireta, esta era também a tentativa de redenção do próprio Josuel.

Em Phoenix, depois do Draft, Leandrinho disse: “Eu honestamente sinto como se eu pudesse dividir meu sucesso com caras como Josuel. Todos os caras do Brasil que tinham o talento mas nunca tiveram a chance”.

Encontrar Josuel no aeroporto me trouxe de volta aos tempos na Africa, onde eu também tinha visto muito talento desperdiçado. Eu me lembro de um garoto congolês de 2m02 chamado Jean que apareceu na quadra do Tanesco Electricity. Esta espécie fisicamente fantástica era da tribo Tutsi, um pequeno vilarejo no remoto coração da Africa. Ele veio viver na Tanzânia depois de ter sido perseguido em seu antigo Zaire, Rwanda, e então no Burundi por causa do genocídio que estava acontecendo na região.

Jean era um jogador fantástico, nascido para jogar o jogo. Ele era tão atlético que podia fazer o pivô antes do lance-livre, saltar estancado e enterra a bola. O cara dormia em um chão de terra e nunca teve mais de uma refeição por dia e ainda assim parecia um fisiculturista. Até hoje, eu vi poucos atletas como ele. Aos meus olhos, pelo menos, Jean era como uma versão maior de Jason Richardson.

Eu o ajudei a conseguir uma bolsa de basquete nos Estados Unidos, mas a imigração dos EUA em Dar não lhe concedeu o visto de estudante.

Ele era bem conhecido pelos norte-americanos em Dar porque eu o levava sempre comigo para os rachas semanais contra os Mariners dos EUA, no ginásio da embaixada dos Estados Unidos. Os Mariners sabiam que Jean era um jogador inacreditável, mas o setor de vistos da embaixada dos EUA não estava nem aí.

Na verdade, a equipe de imigração disse àquela vez que Jean nunca entraria nos EUA. Era tanta má-fé que eu podia me lembrar literalmente da lembrança que Jean tinha daquela conversa. Jean continuou jogando basquetebol, tocando a vida de Dar a Cape Town, África do Sul (mais ou menos a distância entre Boston e Los Angeles), levando um pouco de qualidade à liga profissional de lá.

Morando em um vilarejo, Jean pegou meningite e morreu em três dias.

Coincidentemente, poucas semanas após sua morte, terroristas da Al-Qaeda explodiram uma bomba na embaixada norte-americana na Tanzânia. Eu suponho que a quadra de basquete dos Mariners que nós jogávamos virou fumaça também.

Para tantos da parte miserável do mundo, a vida é muito injusta e repleta de sonhos não realizados. Ao ver a gravação do vídeo de Leandrinho subindo ao palco e apertando as mãos de David Stern, eu me recordo daqueles dias emocionantes na Tanzânia onde as coisas pareciam possíveis para meus amigos. Para mim, portanto, Leandrinho, tenha ele consciência disso ou não, representa um tipo de superstar do mundo pobre.

Ele chegou lá, desde um lugar onde tantas outras pessoas talentosas que nasceram em circunstâncias difíceis não chegaram. É uma coisa tornar-se um ídolo na América do Norte ou Europa, onde um sistema existe para estimular o talento a partir do minuto que ele é identificado. Essas histórias de sucesso são interessantes, mas elas são todas parecidas. Quantos jogadores seguiram a rota para a NBA e Europa por meio de fábricas de basquete como Kentucky ou UNC?

No outro lado da equação estão países como o Brasil, onde a infra-estrutura do basquetebol quase não existe. Enquanto o país produz alguns talentos da NBA ao longo dos últimos anos, o número de clubes no país continua a diminuir. O Continental, onde Leandrinho recebeu suas aulas de basquete, não tem mais um time. Muito talento é perdido no Brasil porque os garotos não têm onde jogar. Em São Paulo, uma cidade de quase 20 milhões de pessoas, existem umas 40 equipes de base. Em comparação, a cidade de Buenos Aires, com umas 10 milhões de pessoas, tem mais de 120 clubes.

A FIBA, em sua infinita sabedoria, tem tornado as coisas mais difíceis nos últimos anos, criando regras que tornam quase impossível que brasileiros vão jogar na Europa antes dos 18 anos. Vai contra lógica que um jogador de basquete possa aprender e desenvolver seu talento para chegar à NBA. Leandrinho é como um milagre do basquetebol. Ele teve a seu favor praticamente nada, além da ajuda de seu professor maluco de basquete, o irmão Arturo.

No dia depois do Draft, Leandrinho e eu nos encontramos com seu irmão Arturo e sua mãe Ivete. Na maioria dos dias, Arturo é um moinho constante de energia e ansiedade. Neste dia, ele estava tomado de paz. Na minha maneira de ver as coisas, seu trabalho estava feito. Ele pode seguir tranquilo o resto da sua vida. O que começou no clube Continental nos subúrbios de Osasco, São Paulo, quando o jovem Arturo decidiu levar seu irmão mais novo com ele para os treinos, terminou sob as luzes ofuscantes do Madison Square Garden, em Manhattan.

Escrevendo essas memórias, eu agora percebo que meu período ao lado de Leandrinho enquanto batalhávamos em sua busca para entrar na NBA foi uma jornada tão intensa quanto eu esperava ser. Ele foi um sofredor que veio, viu e venceu. O conquistador. Chegar lá não foi nenhum conto de fadas, mas nem mesmo Walt Disney poderia escrever um final melhor para a história.

Depois que ele venceu o prêmio de Melhor Sexto Homem, Leandrinho deu uma entrevista a um jornalista brasileiro e me disseram que ele me agradeceu pelo que eu fiz. Todo cão merece seu dia. Eu sabia disso assim como sabia que eu era parte de algo extraordinário. Eu fico extremamente satisfeito de saber que eu pude fazer parte de uma incrível história do esporte.

Quando eu era um jornalista freelancer na Montreal Gazette, meu editor me deu uma grande ajuda me deixando apurar qualquer história excêntrica. Depois que eu entrevistei Chuck Daly no All-Star Game de 2002, na Filadélfia, eu sabia que eu tinha achado algo que algum dia eu escreveria a respeito: Daly comentou que ainda não tinha achado um jogador internacional que fosse tão atlético quanto os tops norte-americanos. De meus tempos de colégio na Tanzânia, eu sabia que haviam atletas incríveis ao redor do mundo. Seis meses depois, eu encontro o famoso vídeo de Leandrinho. Eu me pergunto se Chuck Daly ainda diria isso hoje.

Leandrinho e eu mantivemos contato ao longo das primeiras temporadas. A vida segue adiante e nós também, mas eu tenho certeza que nós iremos nos reconectar algum dia por aí e lembraremos daqueles dias em que o destino sabia o que havia reservado para o brasileiro de mão esquerda grande.

Uuuuuuuufaaaa…. Os times agradecem!

Uuuuuuuufaaaa…. Os times agradecem!

Ajudem o hómi: 6 ou 23?

Ajudem o hómi: 6 ou 23?

Uma série em dez textosPor Gregory DoleOriginalmente publicado em TrueHoopE depois, em 2008, no CortaLuz.Leia a série completa aqui.
O canadense Gregory Dole vive no Brasil e descreve a si mesmo como “escritor freelancer, professor de inglês como segunda língua, técnico de basquete, olheiro e viajante pelo mundo”. Esta é a carreira que não muito tempo atrás, levou-o profundamente de encontro com a vida de um certo “Brazilian Blur”.
Na primavera e verão de 2003, antes e depois do draft da NBA, Dole foi o tradutor de Leandro Barbosa. Ao longo dos próximos dias — francamente, na esperança de conseguir um contrato para escrever um livro (se por acaso houver algum agente ou editor por aí lendo) — Dole estará apresentando histórias de seu período com Barbosa. A primeira história começa quando um jogador brasileiro lhe leva uma fita cassete para a sala de Dole.
***
Na pressa de terminar logo o treino, Leandrinho nem tira seus tênis de andar na rua e nem se preocupa em tirar o seu relógio Adidas. Não é uma vestimenta das mais apropriadas.
Não importa.
Leandrinho vai lá com seu tênis normal, seu relógio de pulso, e tem um daqueles dias que todas as bolas caem. Ele não erra. E em cada exercício, o assistente técnico que comanda o treino acrescenta mais e mais detalhes, com aumento de dificuldade e de velocidade.
O brasileiro tem aquela alegria canina intacta, e acerta um homerun. Os executivos dos Suns não podem disfarçar seus sorrisos. Eles ganharam sua recompensa e parece que eles têm uma boa chance de ficar com o garoto.
Treino terminado, Leandrinho grava uma entrevista, e põe aquele charme que você raramente vê nos atletas. Ele sabe como agir nessa situação e fazer todos gostarem dele. E é isso que ele faz.
Claro que ele ainda está notadamente irritado comigo pela decepção de levá-lo até Phoenix somente para uma entrevista e ao invés disso ter que fazer um treino completo. Não há amor nenhum para o irmão Dole.
Depois de ter tomado banho e estar pronto para ir, nós somos convidados para um almoço. Os Suns querem fazer exames médicos no quadril de Leandrinho nesta tarde, logo ele precisa ficar na cidade um pouco mais de tempo.
Caminhando pela quadra no subsolo da arena, Griff tenta animar seus convidados. Nós realmente gostamos dele. Exato, nós realmente gostamos muito dele.”Então, se ele ainda estiver disponível na nossa escolha, diga a Leandrinho que nós draftaremos ele”, diz o cara dos Suns.
Eu imediatamente traduzo essa breve e fantástica notícia - que resume, essencialmente, toda a carreira basquetebolística de Leandrinho até este momento, todos aqueles exercícios sob a insistente tutela de seu irmão-sargento, sem falar os últimos meses de viagens por todo os Estados Unidos tentando impressionar alguma equipe.
Ele nem responde.
Eu tento novamente. “Então, você está ligado que esse cara acabou de dizer que os Suns vão draftar você. Essas são boas notícias, não? Você será um Phoenix Sun”, eu digo.
"Sim, claro"
As mais famosas últimas palavras de Leandrinho.
O Alegria Canina nos leva então para um almoço buffet em uma suíte VIP próximo do estádio do Arizona Diamondbacks. Abaixo de nós os Diamondbacks estão jogando um jogo matinal. É bem divertido.
Mas até então nenhum sinal de emoção por parte de Leandrinho. Até mesmo o Alegria Canina está espantado pelo comportamento desinteressado do brasilerio. Nós vamos para o hospital e tiramos raios-x do quadril de Leandrinho. O médico explica que, sabendo que os Suns querem draftá-lo, eles querem ter certeza que ele está em boas condições médicas. Uma lâmpada se acende. De repente, neste momento, Leandrinho se dá conta que pela primeira vez que ele realmente será draftado pelos Suns.
Ele vai de mortalmente sério para um alegria incontida, enquanto a equipe médica dos Suns começa a apalpar, testar, cutucar e tirar raios-X dele.
Parte médica terminada, o Alegria Canina nos leva para um shopping descolado em Scottsdale enquanto esperamos passar o tempo até nosso vôo. Nós saímos do ar-condicionado do hospital para ir direto para o ar-condicionado da van do lado de fora da porta de saída, o que quer dizer que o tempo todo aqui nós estamos envolvidos por ar-condiconados.
Nós ainda não tínhamos sentido o calor de Phoenix.
Enquanto dirigimos para o shopping, eu lembro de um colega de sala de quando eu era garoto que tinha o que eu na época achava ser uma camiseta muito legal.
A frente da camiseta era uma figura de um termômetro, um sol sorridente, e um ovo frito em um pedaço do asfalto. Abaixo do desenho estava a frase, ‘eu sobrevivi a 50 graus em Phoenix’.
Fascinado pela ideia de poder cozinhar comida na rua, eu nunca esqueci aquela camiseta ou a cidade de Phoenix. Saindo do ambiente frio de frigorífio que estava dentro da van, eu sou apanhado por uma verdadeira parede de calor quando saio do automóvel.
Eu rio. “O que? Parece brincadeira. Está mais quente que o inferno aqui. Está oficialmente quente pra caramba. Quem pode viver aqui?”
Phoenix não é meu tipo de clima. Nós corremos para o shopping para escapar do calor.
Uma vez dentro, está claro que independente de Phoenix parecer o inferno para mim, para Leandrinho a cidade era o paraíso.
Dentro do shopping é um mar de loiras, empilhadas parede à parede, escada à escada. “Este lugar”, ele se empolga, “é fantástico! Delicioso. E ainda mais delicioso. Eu gosto dessa cidade, eu realmente gosto desta cidade. É animal que eles queiram me draftar”, disse Leandrinho.
Sem brincadeiras, eu ainda acho que Leandrinho gostou de Phoenix mais que as outras cidades por causa da rídicula alta porcentagem de loiras na cidade.
"Mas é tão quente, e ainda nem é verão", eu digo.
"Eu gosto disso", diz Leandrinho, "é um pouco como o clima de Bauru".
"Bauru não tem nada a ver com isso. Eu estive em Bauru e não fica quente desse jeito. Não tem deserto em Bauru, nem perto nem longe", eu respondo.
"Oh, Bauru fica bem quente, você talvez não tenha estado lá em um dia realmente quente", diz o defensor de Phoenix.
Desse momento em diante, não havia como convencer Leandro de outra coisa. Ele estava apaixonado por Phoenix.

Uma série em dez textos
Por Gregory Dole
Originalmente publicado em TrueHoop
E depois, em 2008, no CortaLuz.
Leia a série completa aqui.

O canadense Gregory Dole vive no Brasil e descreve a si mesmo como “escritor freelancer, professor de inglês como segunda língua, técnico de basquete, olheiro e viajante pelo mundo”. Esta é a carreira que não muito tempo atrás, levou-o profundamente de encontro com a vida de um certo “Brazilian Blur”.

Na primavera e verão de 2003, antes e depois do draft da NBA, Dole foi o tradutor de Leandro Barbosa. Ao longo dos próximos dias — francamente, na esperança de conseguir um contrato para escrever um livro (se por acaso houver algum agente ou editor por aí lendo) — Dole estará apresentando histórias de seu período com Barbosa. A primeira história começa quando um jogador brasileiro lhe leva uma fita cassete para a sala de Dole.

***

Na pressa de terminar logo o treino, Leandrinho nem tira seus tênis de andar na rua e nem se preocupa em tirar o seu relógio Adidas. Não é uma vestimenta das mais apropriadas.

Não importa.

Leandrinho vai lá com seu tênis normal, seu relógio de pulso, e tem um daqueles dias que todas as bolas caem. Ele não erra. E em cada exercício, o assistente técnico que comanda o treino acrescenta mais e mais detalhes, com aumento de dificuldade e de velocidade.

O brasileiro tem aquela alegria canina intacta, e acerta um homerun. Os executivos dos Suns não podem disfarçar seus sorrisos. Eles ganharam sua recompensa e parece que eles têm uma boa chance de ficar com o garoto.

Treino terminado, Leandrinho grava uma entrevista, e põe aquele charme que você raramente vê nos atletas. Ele sabe como agir nessa situação e fazer todos gostarem dele. E é isso que ele faz.

Claro que ele ainda está notadamente irritado comigo pela decepção de levá-lo até Phoenix somente para uma entrevista e ao invés disso ter que fazer um treino completo. Não há amor nenhum para o irmão Dole.

Depois de ter tomado banho e estar pronto para ir, nós somos convidados para um almoço. Os Suns querem fazer exames médicos no quadril de Leandrinho nesta tarde, logo ele precisa ficar na cidade um pouco mais de tempo.

Caminhando pela quadra no subsolo da arena, Griff tenta animar seus convidados. Nós realmente gostamos dele. Exato, nós realmente gostamos muito dele.”Então, se ele ainda estiver disponível na nossa escolha, diga a Leandrinho que nós draftaremos ele”, diz o cara dos Suns.

Eu imediatamente traduzo essa breve e fantástica notícia - que resume, essencialmente, toda a carreira basquetebolística de Leandrinho até este momento, todos aqueles exercícios sob a insistente tutela de seu irmão-sargento, sem falar os últimos meses de viagens por todo os Estados Unidos tentando impressionar alguma equipe.

Ele nem responde.

Eu tento novamente. “Então, você está ligado que esse cara acabou de dizer que os Suns vão draftar você. Essas são boas notícias, não? Você será um Phoenix Sun”, eu digo.

"Sim, claro"

As mais famosas últimas palavras de Leandrinho.

O Alegria Canina nos leva então para um almoço buffet em uma suíte VIP próximo do estádio do Arizona Diamondbacks. Abaixo de nós os Diamondbacks estão jogando um jogo matinal. É bem divertido.

Mas até então nenhum sinal de emoção por parte de Leandrinho. Até mesmo o Alegria Canina está espantado pelo comportamento desinteressado do brasilerio. Nós vamos para o hospital e tiramos raios-x do quadril de Leandrinho. O médico explica que, sabendo que os Suns querem draftá-lo, eles querem ter certeza que ele está em boas condições médicas. Uma lâmpada se acende. De repente, neste momento, Leandrinho se dá conta que pela primeira vez que ele realmente será draftado pelos Suns.

Ele vai de mortalmente sério para um alegria incontida, enquanto a equipe médica dos Suns começa a apalpar, testar, cutucar e tirar raios-X dele.

Parte médica terminada, o Alegria Canina nos leva para um shopping descolado em Scottsdale enquanto esperamos passar o tempo até nosso vôo. Nós saímos do ar-condicionado do hospital para ir direto para o ar-condicionado da van do lado de fora da porta de saída, o que quer dizer que o tempo todo aqui nós estamos envolvidos por ar-condiconados.

Nós ainda não tínhamos sentido o calor de Phoenix.

Enquanto dirigimos para o shopping, eu lembro de um colega de sala de quando eu era garoto que tinha o que eu na época achava ser uma camiseta muito legal.

A frente da camiseta era uma figura de um termômetro, um sol sorridente, e um ovo frito em um pedaço do asfalto. Abaixo do desenho estava a frase, ‘eu sobrevivi a 50 graus em Phoenix’.

Fascinado pela ideia de poder cozinhar comida na rua, eu nunca esqueci aquela camiseta ou a cidade de Phoenix. Saindo do ambiente frio de frigorífio que estava dentro da van, eu sou apanhado por uma verdadeira parede de calor quando saio do automóvel.

Eu rio. “O que? Parece brincadeira. Está mais quente que o inferno aqui. Está oficialmente quente pra caramba. Quem pode viver aqui?”

Phoenix não é meu tipo de clima. Nós corremos para o shopping para escapar do calor.

Uma vez dentro, está claro que independente de Phoenix parecer o inferno para mim, para Leandrinho a cidade era o paraíso.

Dentro do shopping é um mar de loiras, empilhadas parede à parede, escada à escada. “Este lugar”, ele se empolga, “é fantástico! Delicioso. E ainda mais delicioso. Eu gosto dessa cidade, eu realmente gosto desta cidade. É animal que eles queiram me draftar”, disse Leandrinho.

Sem brincadeiras, eu ainda acho que Leandrinho gostou de Phoenix mais que as outras cidades por causa da rídicula alta porcentagem de loiras na cidade.

"Mas é tão quente, e ainda nem é verão", eu digo.

"Eu gosto disso", diz Leandrinho, "é um pouco como o clima de Bauru".

"Bauru não tem nada a ver com isso. Eu estive em Bauru e não fica quente desse jeito. Não tem deserto em Bauru, nem perto nem longe", eu respondo.

"Oh, Bauru fica bem quente, você talvez não tenha estado lá em um dia realmente quente", diz o defensor de Phoenix.

Desse momento em diante, não havia como convencer Leandro de outra coisa. Ele estava apaixonado por Phoenix.

Em tempos de vacas magras (sem NBA), o que nos resta é ver vídeos no Youtube. Achei um bem interessante (ou não), de um jogo de highschool do time do Derrick Rose e Eric Gordon vs o time do Blake Griffin! Só já avisando, o jogo não é lá grandes coisas, o Eric Gordon é o melhor, enterra, mete de 3pts etc. O D-Rose leva duas apitadas do juiz por condução durante o drible, toma um prego num chute de 3 pts mas depois da umas dunks (uma dela dando uma senhora andada). O Blake é um capítulo a parte, sabe aquele branquelo gordinho que acha que é forte e quer enterrar em todo mundo mas não consegue? Senhoras e Senhores, Blake no highschool!

Highlights do 3o jogo do Bruno Caboclo no Summer League, metendo pêra de 3pts, parece que é o que ele gosta de fazer mesmo!

Uma série em dez textosPor Gregory DoleOriginalmente publicado em TrueHoopE depois, em 2008, no CortaLuz.Leia a série completa aqui.
O canadense Gregory Dole vive no Brasil e descreve a si mesmo como “escritor freelancer, professor de inglês como segunda língua, técnico de basquete, olheiro e viajante pelo mundo”. Esta é a carreira que não muito tempo atrás, levou-o profundamente de encontro com a vida de um certo “Brazilian Blur”.
Na primavera e verão de 2003, antes e depois do draft da NBA, Dole foi o tradutor de Leandro Barbosa. Ao longo dos próximos dias — francamente, na esperança de conseguir um contrato para escrever um livro (se por acaso houver algum agente ou editor por aí lendo) — Dole estará apresentando histórias de seu período com Barbosa. A primeira história começa quando um jogador brasileiro lhe leva uma fita cassete para a sala de Dole.
***
Nós deixamos o Cleveland Hopkins Airport no início da manhã, aterrizando em nosso destino um pouco antes da hora do almoço. Nós não tínhamos bem certeza se devíamos mesmo ir para Phoenix, mas eu havia convencido o brasileiro que não haveria basquetebol, apenas um encontro com os Suns.
Sob esta condição, ele aceitou tomar o avião.
O guia do Phoenix Suns, um tipo energético e empolgado, nos pegou no aeroporto. Ele se apresentou e falou de sua personalidade, a qual ele se referiu como de uma alegria canina. Ele é contagiosamente estusiasmado. Falando o tempo todo sobre a tal alegria canina e coisas do tipo. Se alguém precisar de uma ajuda extraordinária, chame pela alegria canina. Membros da alegria canina estarão lá para ajudar.
É hora da alegria canina para Leandrinho.
Ele mal pode andar. Executivos da NBA estão ligando para dizer que ele pode nem sequer ser draftado. Nós acabamos de atravessar o país pela manhã e na última hora, na remota chance dos Suns gostarem dele. Na mídia estão dizendo que os Suns prometeram sua escolha para um garoto sérvio chamado Zarko.
Sem culhões, sem glória.
Nós seguimos para o andar subterrâneo da Phoenix Arena. A quadra de treinos está lá no fundo do prédio. Assim que entramos no vestiário, eu começo a pensar que é uma longa viagem de volta para os campeonatos brasileiros. Não existem piscinas de hidromassagem no ginásio de Bauru. Ou de Franca, Ou de Araçatuba. Ou de Piracicaba. Ou de Analândia.
Assim que entra na sala, Leandrinho está certo de que irá fazer apenas uma entrevista. Ele vê o uniforme de treino que a equipe do Suns deixou paa ele numa cadeira, e me lança um olhar que expressa os tipo de coisas que saiu da boca Hubie Brown lá em Memphis.
"Eu não vou treinar para esses caras", diz Leandrinho.
Eu só posso responder com um “Ok”.
Eu falo com o sujeito da alegria-canina dos Suns, que me coloca em contato com o dirigente dos Suns, Dave Griffin.
"Dave, eu não sei se houve algum engano, mas vocês estão pensando que podem colocar o cara para treinar e colocá-lo de volta no avião, mas eu acho que Leandrinho não tem condições de treinar. Ele sente muitas dores por causa da lesão no quadril".
Griff diz, enquanto eles o chamam, “Bem, ele não pode treinar só um pouco? Você sabe, dar uns arremessar e esse tipo de coisa. Nada muito acelerado.”
Eu vou perguntar a Leandrinho, e tenho que encará-lo. Ele está puto. Ele não me olha. Isso não é bom.
"Você acha que pode dar uma treinadinha? Algo leve?", pergunto, torcendo pelo melhor. Eu não preciso esperar por uma resposta.
"Não tem jeito, Dave", eu digo.
"Mas todos os técnicos estão aqui. Bryan está aqui. Jerry está aqui. Todos estão aqui para ver o garoto. Você acha que nós podíamos tentar alongar um pouco para ver se ele fica mais solto para ir para a quadra?", pergunta Griffin. Eu podia ver na sua expressão que ele realmente queria pôr Leandrinho em quadra na frente de seus chefes. Assim como a equipe do Boston Celtics, ninguém esconde o fato de que ele é um fã. Griffin também provou daquela fita milagrosa.
"Eu vou perguntar", disse-lhe.
"Olha, eu acho que você deveria tentar alongar um pouco e ver o que você pode fazer por eses caras. Eles só querem um treino leve, uns arremessos. Nada sério. O fisioterapeuta vai alongá-lo e você se sentirá melhor", eu digo para Leandrinho. A interpretação educada para aquele olhar em minha direção era "caia fora".
Vale mencionar que Griffin está justo ao meu lado quando temos esta conversa, mas ela toda aconteceu em português. Eu não acho que Griffin entendeu a gravidade da situação. Ele está pensando uma coisa, talvez que Leandrinho e eu estamos discutindo sobre loiras ou morenas, enquanto a verdade é que Leandrinho não tem a menor vontade de treinar para o Phoenix Suns.
Eu estou mais preocupado com Leandrinho arrancar minha cabeça fora. É claro, com seu quadril inválido, eu poderia fugir correndo dele. Talvez. De qualquer maneira, estou numa difícil situação. (e as pessoas pensam que ser um tradutor na NBA é puro luxo e glamour. Deixe-me desfazer essa ideia agora mesmo!)
Finalmente, Leandrinho olha para cima, mas não para minha cara, e diz, “Eu vou tentar, mas lembre-se que eu estou fazendo isso por você, seu filho da p…”.
(Escute, se Leandrinho chegar a liderar os Suns para a glória do campeonato algum dia, e for colocado na roda da verdade ou como você quiser chamar isso, você talvez devesse colocar um asterísco ao lado do seu nome e nas notas de rodapé mencionar minha heróica proeza de fazer este garoto treinar para os Suns. Ele treinou para os Suns, e ele fez isso porque eu lhe pedi! Escreva isso. Se os fãs dos Suns querem mandar-me presentes em agradecimento, eu não sou tão orgulhoso a ponto de devolvê-los. Grana é sempre uma boa maneira de dizer ‘obrigado’. Contate Harry.)
Vagarosamente, e temerosamente, Leandrinho veste o equipamento dos Suns.

Uma série em dez textos
Por Gregory Dole
Originalmente publicado em TrueHoop
E depois, em 2008, no CortaLuz.
Leia a série completa aqui.

O canadense Gregory Dole vive no Brasil e descreve a si mesmo como “escritor freelancer, professor de inglês como segunda língua, técnico de basquete, olheiro e viajante pelo mundo”. Esta é a carreira que não muito tempo atrás, levou-o profundamente de encontro com a vida de um certo “Brazilian Blur”.

Na primavera e verão de 2003, antes e depois do draft da NBA, Dole foi o tradutor de Leandro Barbosa. Ao longo dos próximos dias — francamente, na esperança de conseguir um contrato para escrever um livro (se por acaso houver algum agente ou editor por aí lendo) — Dole estará apresentando histórias de seu período com Barbosa. A primeira história começa quando um jogador brasileiro lhe leva uma fita cassete para a sala de Dole.

***

Nós deixamos o Cleveland Hopkins Airport no início da manhã, aterrizando em nosso destino um pouco antes da hora do almoço. Nós não tínhamos bem certeza se devíamos mesmo ir para Phoenix, mas eu havia convencido o brasileiro que não haveria basquetebol, apenas um encontro com os Suns.

Sob esta condição, ele aceitou tomar o avião.

O guia do Phoenix Suns, um tipo energético e empolgado, nos pegou no aeroporto. Ele se apresentou e falou de sua personalidade, a qual ele se referiu como de uma alegria canina. Ele é contagiosamente estusiasmado. Falando o tempo todo sobre a tal alegria canina e coisas do tipo. Se alguém precisar de uma ajuda extraordinária, chame pela alegria canina. Membros da alegria canina estarão lá para ajudar.

É hora da alegria canina para Leandrinho.

Ele mal pode andar. Executivos da NBA estão ligando para dizer que ele pode nem sequer ser draftado. Nós acabamos de atravessar o país pela manhã e na última hora, na remota chance dos Suns gostarem dele. Na mídia estão dizendo que os Suns prometeram sua escolha para um garoto sérvio chamado Zarko.

Sem culhões, sem glória.

Nós seguimos para o andar subterrâneo da Phoenix Arena. A quadra de treinos está lá no fundo do prédio. Assim que entramos no vestiário, eu começo a pensar que é uma longa viagem de volta para os campeonatos brasileiros. Não existem piscinas de hidromassagem no ginásio de Bauru. Ou de Franca, Ou de Araçatuba. Ou de Piracicaba. Ou de Analândia.

Assim que entra na sala, Leandrinho está certo de que irá fazer apenas uma entrevista. Ele vê o uniforme de treino que a equipe do Suns deixou paa ele numa cadeira, e me lança um olhar que expressa os tipo de coisas que saiu da boca Hubie Brown lá em Memphis.

"Eu não vou treinar para esses caras", diz Leandrinho.

Eu só posso responder com um “Ok”.

Eu falo com o sujeito da alegria-canina dos Suns, que me coloca em contato com o dirigente dos Suns, Dave Griffin.

"Dave, eu não sei se houve algum engano, mas vocês estão pensando que podem colocar o cara para treinar e colocá-lo de volta no avião, mas eu acho que Leandrinho não tem condições de treinar. Ele sente muitas dores por causa da lesão no quadril".

Griff diz, enquanto eles o chamam, “Bem, ele não pode treinar só um pouco? Você sabe, dar uns arremessar e esse tipo de coisa. Nada muito acelerado.”

Eu vou perguntar a Leandrinho, e tenho que encará-lo. Ele está puto. Ele não me olha. Isso não é bom.

"Você acha que pode dar uma treinadinha? Algo leve?", pergunto, torcendo pelo melhor. Eu não preciso esperar por uma resposta.

"Não tem jeito, Dave", eu digo.

"Mas todos os técnicos estão aqui. Bryan está aqui. Jerry está aqui. Todos estão aqui para ver o garoto. Você acha que nós podíamos tentar alongar um pouco para ver se ele fica mais solto para ir para a quadra?", pergunta Griffin. Eu podia ver na sua expressão que ele realmente queria pôr Leandrinho em quadra na frente de seus chefes. Assim como a equipe do Boston Celtics, ninguém esconde o fato de que ele é um fã. Griffin também provou daquela fita milagrosa.

"Eu vou perguntar", disse-lhe.

"Olha, eu acho que você deveria tentar alongar um pouco e ver o que você pode fazer por eses caras. Eles só querem um treino leve, uns arremessos. Nada sério. O fisioterapeuta vai alongá-lo e você se sentirá melhor", eu digo para Leandrinho. A interpretação educada para aquele olhar em minha direção era "caia fora".

Vale mencionar que Griffin está justo ao meu lado quando temos esta conversa, mas ela toda aconteceu em português. Eu não acho que Griffin entendeu a gravidade da situação. Ele está pensando uma coisa, talvez que Leandrinho e eu estamos discutindo sobre loiras ou morenas, enquanto a verdade é que Leandrinho não tem a menor vontade de treinar para o Phoenix Suns.

Eu estou mais preocupado com Leandrinho arrancar minha cabeça fora. É claro, com seu quadril inválido, eu poderia fugir correndo dele. Talvez. De qualquer maneira, estou numa difícil situação. (e as pessoas pensam que ser um tradutor na NBA é puro luxo e glamour. Deixe-me desfazer essa ideia agora mesmo!)

Finalmente, Leandrinho olha para cima, mas não para minha cara, e diz, “Eu vou tentar, mas lembre-se que eu estou fazendo isso por você, seu filho da p…”.

(Escute, se Leandrinho chegar a liderar os Suns para a glória do campeonato algum dia, e for colocado na roda da verdade ou como você quiser chamar isso, você talvez devesse colocar um asterísco ao lado do seu nome e nas notas de rodapé mencionar minha heróica proeza de fazer este garoto treinar para os Suns. Ele treinou para os Suns, e ele fez isso porque eu lhe pedi! Escreva isso. Se os fãs dos Suns querem mandar-me presentes em agradecimento, eu não sou tão orgulhoso a ponto de devolvê-los. Grana é sempre uma boa maneira de dizer ‘obrigado’. Contate Harry.)

Vagarosamente, e temerosamente, Leandrinho veste o equipamento dos Suns.

Vejam esses dois lances. Trata-se de um confronto muito particular entre o francês Rudy Gobert e o grego Giannis Antetokounmpo durante as curiosas peladas da Summer League. 

Sim, são peladas curiosas porque os jogos não valem absolutamente nada e servem ainda menos para preparar o time, uma vez que os principais jogadores ainda estão em férias e com os pés sujos de areia da praia.

Nesse sentido, a Summer League é algo entre um laboratório de futuras estrelas e um peneirão pós-Draft. E eu digo laboratório porque esse mês é o melhor momento que os treinadores tem para testar suas apostas para o futuro das franquias. Não à toa estão em quadra os dois atletas supramencionados, Gobert e o grego com nome complicado.

Ambos se enquadram na preferência de padrão físico vigente na NBA nos dias de hoje. Foi-se a época dos super pivôs, entra a era dos pirulões. Por pirulões, entenda aquele biotipo de atleta magro, de braços compridos, perna fina e ombro estreito, que aos 14 anos tinha o apelido de cabeção ou caixa-dágua.

Gobert e o grego de nome difícil se enquadram neste perfil: são jovens e tem por característica uma envergadura muito maior que a altura. Veja bem:

Giannis:
altura: 2m05
envergadura: 2m20
1st round, 15th (2013)
Nascido em 1994

Rudy:
altura: 2m18
envergadura: 2m36
1st round, 27th (2013)
Nascido em 1992

Você, leitor atento, já sabe onde eu quero chegar e já sabe de quem eu vou falar agora. Pois é, Bruno Caboclo. A escolha de Bruno só surpreendeu porque ele é ainda mais novo que os outros dois atletas, mas se analisarmos o biotipo, ele segue exatamente o mesmo padrão: atleta magro, de braços compridos, perna fina e ombro estreito, que aos 14 anos tinha o apelido de cabeção ou caixa-dágua. Veja:

Caboclo:
altura: 2m03
envergadura: 2m31
1st round, 20th (2014)
Nascido em 1995

Eu não estou falando isso do alto da minha cabeça perturbada e ufanista. É uma tendência que já está sendo apontada por gente que estuda a aptidão no esporte. E acredite, os gringos observam bastante esse tipo de coisa. Nós já fizemos um post bem interessante sobre o assunto, com um vídeo de um ex-articulista da revista Sports Illustrated.

Um dos responsáveis por essa mudança de paradigma no biotipo dos jogadores é Kevin Durant. Pode ver: atleta magro, de braços compridos, perna fina e ombro estreito, que aos 14 anos tinha o apelido de cabeção ou caixa-dágua. O título de MVP deste ano é o marco dessa mudança dos tempos.

Esqueçam Shaquille O’Neal, LeBron James e Michael Jordan. A NBA do futuro, meus caros, será dominada por atletas magros, de braços compridos, perna fina e ombro estreito, que aos 14 anos tinha o apelido de cabeção ou caixa-dágua.

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